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A iraniana Leila (Taraneh Alidoosti) dedicou a sua vida a cuidar do pai e dos quatro irmãos, agora adultos. Um dia, tem a ideia de abrir um negócio familiar onde todos possam trabalhar, deixando de estar dependentes das injustiças dos patrões. Mas, para o conseguir, precisa da ajuda monetária do patriarca, que se recusa a gastar seja o que for. Em competição no Festival de Cinema de Cannes, um drama familiar com assinatura do iraniano Saeed Roustayi, também responsável por “A Lei de Teerão” (2019).
Por um punhado de moedas de ouro _Entrevista Luís Miguel Oliveira, Publico de 7 de Dezembro de 2022 Retrato, bastante severo, da vida iraniana citadina de todos os dias, conservando uma dimensão crucial de fábula económica.
Quando há uns meses estreou em Portugal A Lei de Teerão (que sendo o filme da revelação internacional de Saeed Roustayi, era já a sua segunda longa-metragem), o primeiro impulso era dizer que se tratava de “outro” cinema iraniano, com uma intensidade narrativa e até o recurso a alguns modelos de género (o policial urbano, no caso) relativamente divergentes face à ideia geral que ao longo dos anos fomos construindo sobre o cinema vindo do Irão. Mas é um impulso parcialmente erróneo, e este Os Irmãos de Leila (o filme seguinte de Roustayi) confirma-o: é a mesma raiz, eventualmente com outra interpretação das dos grandes mestres mais célebres, mas a mesma raiz, plantada na ansiedade e na angústia com que se faz aparecer o corriqueiro e o quotidiano, e numa espécie de movimento constante, questão quase de vida ou de morte, que é ao mesmo tempo a origem e o produto dessa ansiedade e dessa angústia.
Despido, justamente, da superfície de género que A Lei de Teerão envergava (os protagonistas agora não são polícias), Os Irmãos de Leila é outro retrato, bastante severo, da vida iraniana citadina de todos os dias, conservando uma dimensão de fábula económica que volta a ser crucial. Ninguém tem dinheiro naquela família, todos estão desempregados ou com salários em atraso (o filme começa com imagens de uma greve na fábrica onde trabalha um dos irmãos de Leila), e o filme é uma espécie de corrida contra tudo (contra a lei, contra a própria família, contra as tradições, contra a geopolítica representada pelos tweets de Donald Trump que fazem disparar a inflação em Teerão) e sempre para a frente, à procura de uma estabilidade económica que parece estar sempre do outro lado de um abismo qualquer (o frenesi faz lembrar um bocadinho o último filme dos irmãos Safdie, Uncut Gems). O horizonte, em todo o caso, é comovedoramente estreito: os irmãos só querem investir numa lojinha de centro comercial que nem sequer ainda existe, vai ser construída no lugar das instalações das casas de banho dos homens (e as cenas nessa casa de banho, com os irmãos a sonhar e a mostrar ao pai o sítio da futura loja, enquanto homens entram e saem dos urinóis, são de uma inexcedível ironia agridoce).
Mas a dimensão económica, só por si devastadora enquanto retrato de uma penúria social, é inserida numa teia ainda mais vasta, e de uma complexidade moral fascinante. O choque é também geracional, entre os velhos tradicionalistas (a fantástica personagem do pai, que tudo o que quer é ser nomeado patriarca do clã familiar, entidade que Roustayi filma de modo a fazer lembrar O Padrinho), e receber o respeito e as honras que nunca teve ao longo da vida) e os jovens pragmáticos ou, apenas, necessitados. Aí, sobressai a personagem de Leila, que é o dínamo que põe todos os outros a correr, e que é em si mesma a encarnação da complexidade moral do filme (os filhos estão a roubar os pais, ou a impedir que os pais os roubem?), para além de ser o símbolo implícito (ou raras vezes explícito) do ressentimento feminino para com as características da sociedade teocrática iraniana. Roustayi constrói o filme inteiramente sobre estes choques constantes em várias direcções, com uma atenção ao detalhe impressionante (no desenho de cada uma das várias personagens, por exemplo) num filme que funciona como uma panela de pressão, sempre mais borbulhante, sempre num realismo a desafiar o caos (as cenas de conjunto: a planificação a alternar entre os planos gerais e os planos aproximados de forma imprevisível) mas que soa sempre inapelavelmente dominado e controlado. Belíssimo filme.