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Um filme que reconstitui a aventura de um grupo de espeleólogos da região do Piemonte (Itália) que, em 1961, rumou a Sul e descobriu, no maciço do Pollino, na Calábria, uma das grutas mais profundas do mundo. Com cerca de 700 metros de profundidade, essa gruta ficou conhecida pelo nome de Abismo Bifurto. Prémio Especial do Júri no Festival de Cinema de Veneza, “Das Profundezas” tem assinatura do italiano Michelangelo Frammartino (“Il Dono”, “As Quatro Voltas”).
Psicanálise geológica de Itália Luís Miguel Oliveira, Publico de 5 de Outubro de 2022 Das profundezas é um magnífico exercício de não dizer fingindo que diz, ou exactamente ao contrário.
Dez anos, ou mais, esperámos por uma sequência para As Quatro Voltas, de um realizador que, definitivamente, precisa do seu tempo. Precisa do seu tempo também dentro dos filmes, como Das Profundezas volta a atestar — um tempo contemplativo, aliás uma maravilha de desaceleração, mas um tempo que não é o produto da pura contemplação, bem pelo contrário, é um tempo composto, encenado, montado, e, quer nos planos mais largos quer nos planos mais aproximados, um tempo que está sempre a pensar a relação entre mobilidade e fixidez, entre o humano e a paisagem, entre o presente e o curso da história.
É, de forma assim um bocadinho abstracta, um resumo possível para Das Profundezas (no título original, Il Buco, “o buraco”). O seu centro é uma gruta nas profundezas da Calábria, tida como a mais profunda (ou uma das mais profundas) da Europa, primeiro visitada por uma missão de espeleólogos italianos no princípio dos anos 60. É um movimento para “baixo”, para o fundo, para as profundezas, portanto, o móbil do filme, mas curiosa e genialmente começamos por ver, primeiro, o exacto oposto disso. Recuperando um filme de época, como se fosse uma transmissão televisiva, Frammartino deixa-nos ver o movimento ascendente de um elevador que sobe a fachada do edifício Pirelli em Milão, inaugurado mais ou menos na altura da expedição dos espeleólogos, e um símbolo do “milagre económico” italiano dos anos 50 e 60, esse “milagre” tão documentado, tão criticado, tão espiolhado, por toda uma geração do cinema feito em Itália (dos grandes “autores” aos pequenos mestres da comédia à italiana). O Norte abastado de Itália vai, portanto, para cima; no sul pobre (a Calábria) vai-se para baixo, até ao fundo — com ironia e sem nenhuma explicação, fica dada a profunda desigualdade (ainda hoje, tão problemática) da “geografia social” italiana.
Outras oposições, dadas numa espécie de montagem paralela “ao ralenti”, figuram no filme, com bastante poder expressivo — como a história, dada sem palavras ou quase (aliás, todo o filme, passada a tagarelice “de arquivo” dos repórteres que sobem o Pirelli, é sem palavras ou quase), do velho pastor que parece estar a morrer lentamente no mesmo tempo em que os espeleólogos vão chegando ao fundo da gruta, o que atribui à gruta, entre todas as propriedades simbólicas que o filme permite ao espectador atribuir-lhe (porque o final, sinal da sua inteligência, não “atribui” nada, apenas acumula elementos para que o espectador faça as atribuições que lhe aprouver), ainda uma dimensão fúnebre, como uma cripta. Mas nessa caverna, que também é o tempo das trevas (todos os platonismos e alegorias conexas são permitidos) e também é o tempo de uma espécie de espectáculo primitivo (os efeitos das luzes dos exploradores sobre as paredes e as formas rochosas: é o princípio do cinema, não?), está enterrado uma espécie de eco mudo, abafado, e dado outra vez com enorme ironia (ou enfim: a ironia é a única ferramenta que o espectador tem disponível), do tempo de uma inocência italiana. Aquele exemplar de uma velha revista de espectáculos, com o rosto de Sophia Loren a ocupar toda a capa, que Frammartino faz os seus espeleólogos descobrirem nas profundezas, é o seu sinal maior, numa mistura de nostalgia e convite à semiologia. No subsolo da Calábria, espreita-nos o olhar da “diva” — e a psicanálise de um país funde-se na sua geologia, num magnífico exercício de não dizer fingindo que diz, ou exactamente ao contrário.