CINECLUBE DE JOANE

Abril 2023
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Sérgio Tréfaut
4 ABR 21h45
de Sérgio Tréfaut
5 ABR 21h45
de Saeed Roustayi
6 ABR 21h45
de Todd Field
13 ABR 21h45
de Michelangelo Frammartino
20 ABR 21h45
de Rainer Werner Fassbinder
27 ABR 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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5 21h45

Regresso ao Pó Sérgio Tréfaut Entrada livre


Jornadas de Juventude - Uma parceria da Confraria das Santas Chagas com a Casa das Artes de Famalicão e o Cineclube de Joane, incluída na programação religiosa e cultural da Semana Santa

Ma e Cao vivem numa pequena aldeia chinesa. Sendo ambos pobres e solteiros, as duas famílias combinam o seu casamento. Esta é uma união de conveniência, uma vez que ele é o último da família por casar e ela é deficiente, infértil e, por isso, considerada pouco desejável. Este arranjo poderia tornar as suas vidas ainda mais difíceis. Contudo, compreendendo o lugar um do outro e a rejeição a que sempre foram sujeitos, Ma e Cao aproveitam a oportunidade para mudar o seu destino. E entre eles surge um amor terno e sereno, que lhe vai proporcionar uma felicidade inesperada. Em competição no Festival de Cinema de Berlim, uma história sobre as dificuldades da vida rural na China, mas também sobre o enorme contentamento encontrado nas coisas simples da vida.

Título Original: Yin ru chen yan (China, 2022, 130 min)
Realização, Argumento e Montagem: Li Ruijun
Interpretação: Hai Qing , Wu Renlin
Produção: Zhang Min, Li Yan
Fotografia: Wang Weihua
Distribuição: Alambique Filmes
Estreia: 14 de Dezembro de 2022
Classificação: M/12
A terra a quem a trabalha Jorge Mourinha, Publico de 14 de Dezembro de 2022 Um dos raros filmes chineses recentes a passar fronteiras, e um belo exemplo de como o neo- realismo pode ser actualizado para os nossos dias com inteligência.
Filmado na região natal do realizador Li Ruijun, maioritariamente em décors naturais e recorrendo quase por inteiro a actores não-profissionais, Regresso ao Pó é exemplar do que pode ser uma actualização contemporânea do neo-realismo, acompanhando o quotidiano de um casamento rural numa das zonas mais pobres e despovoadas da China contemporânea. A união é arranjada pelas famílias como maneira de se desfazerem de parentes indesejados: Ferro, o “quarto irmão” enjeitado de uma família numerosa, e Guiying, entrevada e maltratada desde menina.
Acompanhados por um pacato burro que serve de figura tutelar e anjo da guarda, Ferro e Guiying acabam por construir um casamento exemplar de respeito e amor um pelo outro, ancorado nos ciclos sazonais da natureza, encontrando a força de continuar mesmo quando os elementos e as circunstâncias parecem conspirar contra eles. O tema central de Regresso ao Pó é esse, quase cristão na acepção franciscana da palavra: a virtude da simplicidade, a busca da dignidade, a convicção de fazer parte de um todo inseparável com a natureza, por oposição ao egoísmo e ao artificialismo do mundo moderno.
Neo-realismo implica quase sempre melodrama, e o que salva Regresso ao Pó de cair no excesso a que o género pode dar lugar é a absoluta secura da sua abordagem, paredes meias com o estoicismo, mas capaz de encontrar beleza na aridez (o tom geral da fotografia de Wang Weihua é o ocre da terra e dos tijolos, o laranja da luz nocturna reflectida nas paredes, o dourado do trigo). Embora Hai Qing, a actriz que interpreta Guiying, seja a única profissional do elenco, é Wu Renlin, no papel de Ferro, que sustenta o filme com uma naturalidade de estarrecer, perfeito no seu agricultor à antiga, consciente de que a família o considera um “idiota útil” e contudo capaz de perdoar e seguir em frente como se nada fosse. Com a tal dignidade que parece faltar a todos os outros com quem o casal se cruza ao longo deste filme admiravelmente contido e de uma elegância formal a toda a prova.
Não se deverão buscar em Regresso ao Pó grandes novidades nem originalidades; reconheça-se apenas um óptimo exemplo de cinema clássico, inteligentemente concebido e executado, que reflecte sobre o país que mostra de modos mais profundos do que parece. Li Ruijun teve a sorte desta sua sexta longa ter chegado à estreia comercial na República Popular, onde estava a obter assinalável sucesso (sobretudo para um filme “de autor”) — antes de ter sido retirado subitamente de exibição, sem explicação das autoridades. Mas o olhar que ele lança sobre algumas das zonas mais despossuídas da China, conjugado com a sua repercussão pública, pode bem não ter agradado aos responsáveis.