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No dia 8 de Fevereiro de 1977, Tony Kiritsis dirigiu-se à Meridian Mortgage Company, em Indianápolis (EUA), para se reunir com M.L. Hall, o presidente da empresa. À chegada, encontrou Richard Hall, o filho do empresário, que o informou que o pai estava de férias. Sentindo-se vítima de fraude na compra de terrenos, Kiritsis tomou Richard como refém, prendeu-lhe uma caçadeira ao pescoço e montou um mecanismo de “dead man’s switch”, pronto a disparar caso alguém decidisse intervir. Alegando ter sido enganado pela família Hall, exigiu um pedido público de desculpas, cinco milhões de dólares para cobrir os prejuízos e total imunidade pelo seu acto. O que começou como um gesto de puro desespero transformou-se num verdadeiro caso de polícia, acompanhado em directo pelos média durante quase três dias, numa escalada de tensão que lançou o debate sobre as leis criadas para beneficiar os mais ricos e poderosos. Realizado por Gus Van Sant e escrito por Austin Kolodney, com consultoria histórica de Alan Berry e Mark Enochs — que colaboraram no documentário “Dead Man’s Line” (2018) sobre os mesmos acontecimentos —, o filme é protagonizado por Bill Skarsgård no papel de Kiritsis, ao lado de Dacre Montgomery, Cary Elwes, Myha'la, Colman Domingo e Al Pacino.
Crime em Directo, de Gus Van Sant: a energia do ressentimento, noutro tempo Luis Miguel Oliveira, Publico de 26 de Fevereiro de 2026 É contra o pano de fundo de um país tomado pela violência política do ressentimento que o filme de Gus Van Sant se recorta.
Gus Van Sant em modo de realizador a contrato, a pôr mãos à obra num projecto que não é necessariamente pessoal e até já tinha estado atribuído a outro nome (foi Werner Herzog quem primeiro esteve a trabalhar neste mesmo argumento assinado por Austin Kolodney) — conseguimos pensar numa mão cheia de “autores” a quem faria bem, de vez em quando, exercitar o pragmatismo neste tipo de empreendimentos à antiga americana.
Apartes à parte, mas não assim tanto à parte, o mais cativante em Crime em Directo, que não é uma série B (o que é propriamente uma série B hoje?), é a maneira como reproduz a energia, a rapidez e a concentração narrativa típicas da série B, sem dispersões e com um sentido exacto (e “estruturante”) do ritmo dos diálogos, das cenas, e da montagem, que aqui, para além de implicar a velocidade das cenas e da passagem entre cenas, implica também a inserção de imagens de arquivo (são os anos 70, e por esse prisma um filme que na obra de Gus Van Sant é aproximável de Milk, que também era muito hábil a trabalhar a “época” a partir da aura documental mesclada na ficção).
Reconstitui um caso verídico sucedido em 1977, o de um homem de Indianápolis que, sentindo-se enganado por uma empresa da área das finanças do imobiliário, raptou um dos seus directores, exigindo ser ressarcido mas também, e sobretudo, um pedido de desculpas público. O “crime” foi “em directo” porque a história foi amplamente coberta pelas televisões regionais (é por isso que há tanto “arquivo”) e de certo modo preparada para elas — não terá sido o primeiro caso, mas é evidente que na cabeça do perpetrador estava todo o sentido de espectáculo, “performativo” q.b., da sua acção.
Van Sant reconstitui o centro da narrativa com habilidade e frenesi, mas tão importante como isso é o “coro”, toda a orla de personagens secundárias (os polícias, os familiares, os jornalistas, o DJ negro que o raptor escolheu como interlocutor preferencial) que vem emoldurar a história principal e dar-lhe um ponto de vista. Que é relativamente cómico, ou pelo menos irrisório — não houve mortos nem nada de drástico, todos os intervenientes se conhecem bem uns aos outros porque é uma escala curta e quase familiar, a história pode ser arrumada na gaveta do anedotário e do pitoresco. Um Dog Day Afternoon em versão inofensiva (sinalizar o filme de Lumet é o que em Crime em Directo anda a fazer Al Pacino, e Van Sant até faz uma demonstração prática de como empregar hoje Al Pacino: a conta-gotas e de maneira que torne “orgânica” toda aquela exuberância).
Finalmente, outra coisa que é preciso notar porque o filme é feito agora e, sobretudo, está a ser visto agora, e fica como o comentário inteligentemente deixado em “contexto de invisibilidade”: o motor de Crime em Directo, a motivação do raptor, não é outra coisa senão a energia do “ressentimento”, que talvez em 1977 ainda não tivesse a expressão política, ou pelo menos a capitalização política, que viria a ter décadas mais tarde, e que é onde estamos hoje (quem diz “estamos” diz “está”, a América).
É contra este pano de fundo de um país tomado pela violência política do ressentimento que o filme de Gus Van Sant se recorta, e é por isso que na sua escala quase familiar, quase paroquial, cómica (sem ser filmada como uma comédia, atenção, porque justamente não precisa de sublinhados), nas suas consequências anódinas, se transmite uma peculiar e comovente sensação de nostalgia: a nostalgia de um tempo em que havia uma resolução para o ressentimento, ou pelo menos uma maneira de o integrar sem escaqueirar tudo à volta. De algum modo, parece-nos que este lamento é a mais funda das razões de ser de Crime em Directo.