CINECLUBE DE JOANE

Maio 2026
Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão

Programa mensal

de Pedro Cabeleira
7 MAI 21h45
de Pauline Loquès
14 MAI 21h45
de Gus Van Sant
21 MAI 21h45
de Wang Bing
28 MAI 21h45

As sessões realizam-se no Pequeno auditório da Casa das Artes de Vila Nova de Famalicão. Os bilhetes são disponibilizados no próprio dia, 30 minutos antes do início das mesmas.

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28 21h45

JUVENTUDE: REGRESSO A CASA Wang Bing


Já Não Há Cinéfilos?! trilogia Juventude de Wang Bing

Realizado pelo cineasta chinês Wang Bing – também responsável por “A Fossa” (2010), “Três Irmãs” (2012) e “Almas Mortas” (2018) –, este documentário, estreado no Festival de Veneza, divide-se em três partes e retrata as dificuldades enfrentadas por jovens de várias zonas rurais da China que se mudam para Zhili, a 150 quilómetros de Pequim, para trabalharem em fábricas têxteis. “Juventude - Regresso a Casa”, o último capítulo, segue o regresso deles às suas terras natais para celebrar o Ano Novo Chinês. No final das festividades, confrontam-se com um dilema: permanecer na aldeia e levar uma vida simples ou regressar às fábricas, aceitando tudo o que os espera.

Titulo original: Youth: Homecoming (França/Países Baixos/
Realização: Wang Bing
Produção: Sonia Buchman, Mao Hui, Nicolas R. de la Mothe, Vincent Wang
Fotografia: Shan Xiaohui, Song Yang, Ding Bihan, Liu Xianhui, Maeda Yoshitaka, Wang Bing
Montagem: Xu Bingyuan, Liyo Gong
Estreia: 22 de Maio de 2025
Distribuição: Midas Filmes
Classificação: M/12
Wang Bing e o país das ferramentas humanas — entrevista sobre Juventude, dez horas de cinema Vasco Câmara, Público de 21 de Maio de 2025 Quando um dia alguém quiser saber do futuro que o século XXI nos negou (e também dos seus feitos cinematográficos), terá de passar pela obra de Wang Bing. As dez horas de Juventude chamam-nos.
Em Junho de 2002, o DocLisboa, edição realizada então no Centro Cultural de Belém, brindava a competição internacional com as cinco horas de uma primeira obra chinesa. Chamava-se Tiexi District: West of the Tracks e fora o grande acontecimento, meses antes, do Festival de Berlim, sessão integrada num precioso programa, na secção Forum, dedicado à que era então a mais recente geração do cinema chinês — isto era quando a Berlinale ainda não tinha mergulhado na irrelevância que a soterrou. Em Lisboa, Tiexi Distric receberia o Grande Prémio, integrava o júri internacional o português Pedro Costa.
Tinha sido filmado entre 1999 e 2001 no maior estaleiro industrial da China, então agonizante: a produção decrescera, as condições de trabalho tornavam-se precárias, a maquinaria desactualizara-se.
Quando o século XX fechava as portas, um grande complexo siderúrgico, uma das bandeiras do socialismo chinês, tinha também os dias contados. E deitava a cabeça de fora o pragmatismo económico do regime. Castigador, vaidoso e implacável, o futuro. Naquele final de século acenava com uma promessa de abertura do país ao sistema de mercado. A China movia-se!
Wang Bing, um pequeno homem, começava aí, em Tiexi District, a dar passos de gigante por um país com a dimensão de um continente. Na altura não podíamos prevê-lo, apesar do monumento de escuridão, sombras e neve que eram aquelas cinco horas (há uma versão de nove), mas hoje já podemos afirmar que Fengming, a Chinese Memoir (2007), A Fossa, 2010, Três Irmãs, 2012, ‘Til Madness do us Part, 2013, Traces e Pai e Filho, ambos de 2014, ou Almas Mortas (2018) ficam como exemplos de epopeia cultivada de forma solitária no cinema contemporâneo. Por um tímido que não desperdiça emoções ou salamaleques e que se engaja na determinação de não abandonar o seu povo. Mas nem na coragem Wang Bing dá hipótese às efusões ou ao espectáculo. Quando um dia alguém quiser saber do futuro que o século XXI nos negou — e também os seus feitos cinematográficos — terá de passar pela obra de Wang Bing. São poucas as suas ficções — naquela lista de exemplos, só A Fossa —, a maioria dos seus filmes são documentários, formato ou registo que o realizador que hoje tem 57 anos foi fazendo seus com a prática. Não é uma desconfiança, é a única maneira de escapar ao controlo que o Estado exerce sobre a indústria cinematográfica: só prescindindo da ficção e dos seus recursos Wang Bing pôde filmar o que filmou, a China que não é vista pela China.
Os seus filmes são, por isso, não oficiais. Isto é: ilegais. Os dados da sua filmografia, assim como os ecos internacionais da obra, são rasurados no seu país. Não há na China uma sala de cinema “convencional” que tenha exibido qualquer um dos seus títulos.
O futuro, que se projectava em Tiexi District: West of the Tracks, é hoje. O século XXI está a ser agora. Onde se vê hoje a China, mais de duas décadas depois do gesto que inaugurou um cineasta?
A China de hoje vê-se em Juventude, filmado entre 2014 e 2019 em ateliers de indústria têxtil da província de Zhili, norte do país, não longe de Xangai, que é uma cidade cuja economia marca o tempo chinês. São procurados por 300 mil trabalhadores migrantes, na maioria jovens, que chegam de todas as partes do território. Querem encontrar emprego numa das 18 mil pequenas unidades privadas de produção. Coserão peças de vestuário infantil que serão destinadas ao mercado doméstico ou a exportação. Essas empresas nascem como cogumelos em ruas de nomes etéreos e poéticos que são uma promessa por cumprir porque atravessam aglomerados urbanos cheios de lixo, humidade e abandono. Foram construídos, a sua existência depende disso, em volta de uma actividade económica... empresas que se desvanecem quando o empregador foge com o dinheiro e não deixa traço a não ser o dos salários por pagar.
Até pela sua duração, cerca de dez horas divididas em três filmes, Primavera, Tempos Difíceis, Regresso a Casa, Juventude evoca o gesto de Tiexi District. A pergunta a fazer a Wang Bing tem de ser esta: o que é que aconteceu ao futuro que naquele filme se desenhava?
“Quando filmei West of the Tracks também eu era jovem. Tinha muita energia e esperança no futuro e no que o futuro pudesse trazer ao desenvolvimento da China. Em termos económicos e políticos: desenvolvimento no sentido mais frondoso, de dádiva para a vida das pessoas, e subsequentemente para a minha. Isso não se passou enquanto filmei Juventude. Também porque nestas décadas de vida tive altos e baixos. Mas estes anos que passaram levam-me a pensar que não há esperança no futuro. As pessoas que filmei num e noutro documentário experimentaram mudanças drásticas nas suas vidas. Mas não são as mesmas pessoas.”
“Quando filmei West of the Tracks”, continua, “a China já estava a entrar num processo de reforma e de abertura. Privatizaram-se muitas empresas estatais que não estavam a funcionar bem. Foi um grande choque para muitos trabalhadores e para as suas famílias porque perderam os empregos. Olhando agora para a situação: a China não é uma economia de marcado em sentido liberal, é capitalismo estatal. Passaram duas décadas. A riqueza aumentou e a vida de pessoas que estavam em posição mais precária melhorou. Mas uma outra situação foi gerada. A de uma mão-de-obra barata que não é recompensada de forma justa. A riqueza do país também é gerada por ela, mas, no final, nada lhe cabe. As pessoas são utilizadas como ferramentas humanas. Sim, há pessoas que puderam começar a ganhar 600 ou 700 euros por mês na China. Mas há muita incerteza. E o futuro é sombrio.”
Encontrámos Wang Bing duas vezes por causa de Juventude. A primeira no Festival de Veneza em Setembro de 2024, quando o terceiro tomo da trilogia foi ali exibido. A primeira parte fora mostrada antes, em Cannes. Continuámos depois a conversa em Lisboa, por onde o cineasta passou fugazmente neste mês de Maio. Veio apresentar os três filmes quando eles ocuparam a programação de todo um sábado do cinema Ideal, no âmbito do IndieLisboa. Wang Bing reside neste momento na Europa por causa do seu trabalho. Pôs-se longe da China a montar Juventude — 2600 horas de rushes, o maior volume de material rodado de toda a sua filmografia — e termina neste momento outros projectos. Mas o afastamento do seu país é temporário. “Não vejo futuro para a vida daquelas pessoas”, reforça. “No final de Juventude há lojas que fecham e as pessoas continuam a procurar trabalho. Poderão encontrar empregos em outras indústrias. Mas as condições serão as mesmas. Continuarão amarradas a longas horas de trabalho. As pessoas são como as tecnologias: tornam-se obsoletas e uma nova geração substitui-as. Nos últimos 40 anos já três gerações trabalharam nestes ateliers. Quando uma ferramenta se estraga, substitui-se por outra. Quando uma tecnologia se torna obsoleta, passa-se à seguinte sem qualquer consideração. Se houver trabalho, pode-se comer. Se não houver trabalho não se come. Não há outras garantias para estas pessoas, não há medidas de segurança. Não têm plano de reforma. Não têm seguro de saúde. Não têm nada. Nem a garantia de uma vida melhor.”

O início da maratona


E no entanto, o início de Juventude promete a Primavera. A competição nos ateliers, onde se ganha por peça montada, é como um acasalamento sem cerimónias. Nos esquálidos dormitórios onde jovens de ambos os sexos dormem, comem e lavam a roupa, onde a intimidade não goza de delicadezas nem tem muralhas de protecção, a (falta de) higiene não é sequer uma aventura pessoal. “Porque é que não tomamos banho juntos?”
Mas canta-se o amor. As disputas amorosas. Nas oficinas as brincadeiras podem descambar de forma imprevisível em pancadaria, mas o barulho das máquinas deixa ouvir fragmentos do discurso amoroso: “— Não quero ser o teu passado. Quero ser o teu futuro.” /“— Não fazes o meu género, não sinto essa faísca, tesão.”
A história de Li Shengnan é exposta: engravidou, tem de deixar Zhili e voltar à sua província natal para abortar, mas ainda não acabou de coser as peças do seu lote. Levará com ela, no regresso à aldeia, ensinamentos: que “o aborto é como se um cão nos mordesse e nós o mordêssemos também”. Os pais negociarão os detalhes do casamento se, afinal, Li não quiser abortar: quem ficará a viver em casa de quem, detalhe do qual dependem o apelido daquele que vai nascer, e até do que vier a seguir, e toda a hierarquia e ascendente familiar.
“— Não posso casar com uma família pobre ou isso vai ser uma vergonha para o meu pai.”/“—
Não somos assim tão pobres.”
Por causa do regresso a casa, para o Ano Novo Chinês, o Festival da Primavera, os trabalhadores invadem o escritório do patrão. É a sua última tentativa. Têm aí o vislumbre do pagamento com que contarão. O patrão fixará o valor que lhe convém, calculado a partir de uma variável, a quantidade de lotes confeccionados. A negociação, porque também há as horas extras, propõe uma subida dos preços mas é tenso o diálogo e o vencedor está declarado.
“— Eu é que sou o patrão. Querem dar-me ordens?” /“— Que chatos! Não vêem que o patrão está a trabalhar?”
A câmara de Wang Bing acompanha alguns dos jovens aos autocarros e às estações de comboios de regresso a casa. Viaja com eles. Tocam-se baladas folk. É Primavera.
“Inicialmente”, conta o realizador, “não havia a ideia de fazer uma trilogia. Tínhamos apenas um plano de rodagem de meio ano. Mas no local percebemos o potencial do que tínhamos ali e decidimos regressar e continuar a rodagem. Fizemos isso em diferentes períodos de tempo. O plano era então chegar a um filme só, longo, mas era demasiado longo e decidimos dividi-lo em três capítulos. Gostávamos demasiado do material [para o deixar fora da montagem] e queríamos mostrá-lo no ecrã. Foi assim que apareceu a trilogia. É o meu filme mais longo”.
Cada um dos três, Primavera, Tempos Difíceis, Regresso a Casa, contém material de um específico período de rodagem e a montagem baralhou para voltar a dar. Não houve trânsito de cenas entre os três filmes. “O primeiro é feito com material filmado entre 2014 e 2015. O segundo contém sequências captadas entre Agosto de 2015 e o final de 2016. O último é feito com o que foi rodado entre 2016 e 2019. Cada um deles é diferente pelos anos que abarca e pelas histórias que conta.” Wang Bing, nisso, é fundamentalista: “Não se pode mudar a ordem, pegar em cenas da terceira parte e colocá-las na primeira.” Podem ser vistos em separado, os três filmes, nas salas de estreia em Lisboa, Coimbra e Funchal, mas pelo menos no Ideal, em Lisboa, há a possibilidade de se escolher uma maratona. Não é irresistível?

Sem papelada, sem regras


Um patrão envolveu-se de forma violenta com um fornecedor de tecido e desapareceu. Levou com ele o dinheiro da empresa. “— Deu um enxerto de pancada num gajo e ninguém faz nada?” Os trabalhadores tentam vender então as máquinas que ficaram para dividirem entre si o dinheiro e conseguirem pagar o bilhete de transporte para o regresso a casa. Outros procurarão novas oficinas.
São Tempos Difíceis. Há problemas com a maquinaria e as agulhas. Dobrar o entrepernas de uma das peças afigura-se tarefa de monta, acaba em rasganço. “— Quantos lotes já estragaste?” Um patrão não reconhece a cópia do registo das peças finalizadas por um dos empregados. Não lhe vai pagar. Se ao menos lhe desse dinheiro para a viagem de regresso a casa? Não ali. “— Aqui ninguém tem contrato. Ninguém assina nada. Como se assinar fizesse alguma diferença. Isto nem são empresas a sério. Um tipo arrenda um espaço e monta um negócio, sem papelada, sem regras.”
Mas há outros problemas: “— Se arranjares outra namorada ficas logo falido outra vez.” A sede de risco é sôfrega, não reconhece perigos: “— Vamos procurar outro sítio, onde haja miúdas.” Os que regressam a casa talvez sejam derrotados, mas são recebidos nas aldeias com os fogos do Ano Novo Chinês.
No protocolo de Wang Bing com as pessoas que filma não há protocolo, diz ele. “É muito simples, é muito espontâneo.” Conhecem-se, falam-se e a câmara fica ligada “a captar tudo o que acontecer, naturalmente”. A espontaneidade está nos dois lados. “Nunca falo excessivamente com as pessoas, sobretudo observo-as. Mas analisamos mutuamente as condições em que estão a viver. E assim vão-se aproximando da equipa e a equipa vai-se aproximando delas. Quando acabei a escola de cinema, não tinha conhecimentos específicos de como fazer documentários. Foi a observar que fiz West of the Tracks: eles a relatarem as suas histórias, eu a tentar perceber. E é assim que continuo a fazer.”
A consequência disto: um ponto de encontro entre o particular e o universal, deparando-se o espectador, com os nomes que aparecem no ecrã, a sua idade e a proveniência desses destinos, perante a possibilidade de criar um lugar de observação e de empatia. Sem possibilidade dada à identificação romanesca, o ecrã é sobretudo um mural, um monumento, rugoso como os veios da pedra. Uma homenagem: eles estiveram aqui. Que hipóteses têm os espectadores chineses de criarem para si esse lugar?
“Só através de links online. Não sei quem os colocou na Net e não tenho interesse em ser eu a prosseguir com isso. É uma relação entre os espectadores. Mas sim, os meus filmes habitam as zonas das margens e não oficiais, as zonas cinzentas. Isso não importa, não há qualquer objectivo de operação comercial da minha parte, nunca pensei em qualquer objectivo industrial.” Saberão, os espectadores chineses, quem é Wang Bing? “Ser reconhecido não me interessa, desde que as pessoas tenham canais para aceder aos filmes. É para mim uma obrigação social retratar estas pessoas, contar as suas histórias, as suas vidas, a sua existência. Não tenho nenhum plano em mente. O que eu quero mesmo é relatar como a maioria das pessoas vive na China. Sinto essa obrigação social. É esse para mim o sentido de um filme. O seu valor.”

O futuro com a mesma máquina


Um patrão não tem dinheiro. “— Não entra nada, não tenho como pagar.” Outro deu à sola, com dívidas. O empregado, esse trabalha onde calha, tem filhos para criar. Mas não tem sorte. “— Recebe-se uma miséria e ainda se fica com reumatismo.” Há costureiras a mais, ninguém está a contratar. Oficinas foram à falência.
Com O Regresso a Casa, o último capítulo, Juventude vai respirar para outros cenários, ao encontro de uma humanidade que até aí parecia insondável no mundo. Parte para o campo ao encontro das famílias, dos pais idosos e doentes que estão dependentes dos filhos. Esse é o fardo que pesa na vida destes. “Fico mais deprimido sempre que penso no futuro e se vamos sobreviver.” O retrato de Mao preside às refeições e é gigante, mas é um souvenir. Apanha-se cebolinho. As ruas de Zhili são um fantasma distante.
Eram um fantasma no final de 2019, quando a rodagem terminou. O que aconteceu entre 2019 e 2025?
“Nada mudou no modelo de negócio nem na cidade: ainda há muitos ateliers de roupa. Mas mudou a força de trabalho. Era mais jovem, tornou-se mais velha. A alegria e o entusiasmo que se testemunhavam no início do filme deram agora lugar a stress e pressão. As vidas das pessoas que filmámos ao longo da trilogia, os protagonistas, também mudaram drasticamente. Tiveram filhos e divorciaram-se. O romantismo que se encontra na primeira parte desvaneceu-se. O documentário é muito diferente da ficção porque não pode ser romântico. Tem de falar a verdade da vida real e das suas mudanças.”
Mas há aquela figura final, no último plano do último filme da trilogia, corte abrupto com o cenário em que O Regresso a Casa se espraiava, de novo a claustrofobia, de novo o ambiente do barulho das máquinas. Voltámos aos ateliers. Essa figura ameaça deixar de ser ela própria para se tornar num símbolo. Wang Bing é preciso, determinado, peremptório: aquele foi o último plano que filmou, “no dia 29 de Março de 2019”, e como tal quis mantê-lo como o último plano do filme. Não houve, com a montagem, qualquer mudança de cenas de lugar para construir um sentido. Não se tratou de manipular um arco narrativo circular — Wang Bing revela as suas distâncias perante a palavra “narrativa”. Tratou-se de respeitar o sentido da realidade, a circularidade que ela própria impôs.
“O documentário e a ficção são extremamente diferentes”, diz ele, hoje que sabemos que o credo até é outro, diz que não existe diferença entre o documentário e a ficção. “Na ficção pode criar-se uma ordem para a história e fazer com que os espectadores sintam a beleza e a dureza da vida das personagens. Isso não se pode fazer no documentário. A história vem do material e da vida que filmámos. Não pode haver construção, não podemos adulterar. Claro que por razões humanitárias podem empregar-se truques para construir uma história, mas é algo que não faço. Filmo metodicamente a vida das pessoas e tento representá-las da forma mais leal que puder. O filme e as pessoas estão ao mesmo nível. Essa última cena foi de facto a última que filmei. Não tinha outra posição para estar a não ser no final do filme.”
A realidade é que tem de evidenciar o seu sentido, é isso o que Wang Bing quer dizer. O seu trabalho é pacientemente o de escutar o que o mundo tem a revelar. “Todas estas personagens têm uma vida circular. Não têm futuro, estão sempre no mesmo sítio. Antes víamos ali um jovem, um rapazito. Agora vemos uma pessoa mais madura, com família. Continua a sentar-se à mesma máquina de costura.” É o homem-ferramenta.